Bater de frente pode ser uma forma de o adolescente chamar atenção para
suas necessidades
Acredite: não é só para infernizar a vida dos adultos que o adolescente
insiste em contrariar as opiniões dos pais. Segundo a psicóloga Mara Pusch, da
Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), esse é um comportamento que indica
que eles estão se desenvolvendo bem, de acordo com o esperado para a fase.
“No processo de criação da identidade, o adolescente usa os pais como
referência. Porém, como quer mostrar que tem seu próprio ponto de vista, a
primeira reação é criticar o que quer que os pais digam ou façam”, afirma Mara.
A boa notícia é que, em um segundo momento, o jovem pode voltar atrás em muitos
de seus posicionamentos e acabar acatando as decisões dos adultos, depois de
refletir um pouco.
Para o psiquiatra Içami Tiba, autor de diversos livros sobre educação,
entre eles “Quem Ama Educa: Formando Cidadãos Éticos” (Integrare Editora),
filhos que insistem em contrariar o tempo todo podem estar pedindo um pouco
mais de liberdade.
“Os filhos ficam um pouco inseguros em crescer. Mas há pais que sofrem
ainda mais ao constatar que eles estão mudando e continuam tratando o
adolescente como se ele fosse criança", diz Tiba. Para o psiquiatra,
quando o pai não faz questão de se aproximar e insiste em restringir a
liberdade, sem dividir responsabilidades com o filho, uma das maneiras que o
jovem encontra para chamar a atenção sobre suas necessidades é bater de frente.
Escolha os
conflitos
Diante dessa situação, manter a cabeça fria e refletir sobre a postura
do jovem, antes de tomar qualquer atitude, é o mais importante. Os
especialistas afirmam que, para evitar conflitos que desgastem demais a
relação, o essencial é discernir quando é o momento de fazer valer a sua
opinião, independentemente de o jovem concordar ou não com o seu
posicionamento, e a hora de ser flexível e deixar o adolescente escolher, de
acordo com a vontade dele.
“Algumas questões não podem ser negociadas, como ir ao dentista ou ao
aniversário de 70 anos do avô. Em outras situações, no entanto, os pais devem
pensar se vale a pena entrar em um embate. Se a família vai a um churrasco
qualquer, com pessoas que o jovem não conhece, por exemplo, não há nada demais
em liberá-lo para sair com os amigos”, diz Mara Pusch.
Nessas horas, é fundamental que o adolescente tenha o direito de se manifestar, mesmo sabendo que nem sempre sua vontade prevalecerá. Ao manter a decisão tomada, à revelia da opinião contrária do filho, é importante que os pais sejam firmes no momento de se colocar, que expliquem a opção feita com argumentos e que estejam convencidos de que estão fazendo o melhor para o adolescente, ainda que isso vá contra os desejos dele.
“No fundo, os filhos gostam muito de saber que têm alguém que se importa
com eles e se sentem seguros ao receber limites. Ainda que não deixem isso
transparecer. Por isso, os pais devem intervir quando necessário, sem nenhuma
culpa”, afirma Mara.
Além de comunicar de maneira clara, direta e objetiva a sua decisão,
justificando-a brevemente, os pais devem considerar um outro cuidado nessa
conversa com o adolescente que faz questão de nadar contra a maré.
“Muitos pais acabam entrando em uma espécie de competição para ver quem
pode mais. Isso é extremamente nocivo para a relação. É preciso que os pais
lembrem-se sempre de sua posição e ajam com maturidade e bom senso”, afirma
Solange de Melo Miranda, pediatra com habilitação em saúde do adolescente e
membro do Núcleo de Saúde do Adolescente do Hospital das Clínicas da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais).
Nas situações de confronto, vale a pena fazer alguns tratos para persuadir o adolescente a agir da forma mais adequada. Os pais podem combinar que, se o jovem melhorar as notas no colégio ou participar mais das atividades de lazer da família, por exemplo, vai ganhar o direito a voltar mais tarde para casa quando sair à noite -de vez em quando.
Nas situações de confronto, vale a pena fazer alguns tratos para persuadir o adolescente a agir da forma mais adequada. Os pais podem combinar que, se o jovem melhorar as notas no colégio ou participar mais das atividades de lazer da família, por exemplo, vai ganhar o direito a voltar mais tarde para casa quando sair à noite -de vez em quando.
Nessa conversa, também é importante combinar previamente qual será a
situação caso uma das duas partes não cumpra com o combinado. “Uma boa pedida é
começar a dar mais responsabilidades para o seu filho e,
à medida que ele dá conta, oferecer a ele o prêmio da independência”, diz Tiba.
Para José Alcione Macedo Almeida, ginecologista especializado em
adolescentes do Hospital das Clínicas de São Paulo, argumentar e negociar com o
adolescente dá mais trabalho do que exigir obediência, mas é o melhor caminho.
“É a partir desse jogo que se estabelecem as melhores relações entre
pais e filhos. Sem contar que é no diálogo que, além de ensinar, aprendemos
muito com os nossos jovens”, afirma o especialista.